De acordo com números divulgados pelo Ministério da Saúde, o Brasil é o maior comprador governamental de camisinhas masculinas do mundo. Só em 2011, o país atingiu a marca recorde de 493 milhões de preservativos adquiridos e fornecidos pelo órgão público, equivalente a quase 40% do consumo geral, sendo o restante comercializado pelas fabricantes.

Mesmo assim, é o país da América Latina que mais concentra casos de novas infecções por HIV na região: São cerca de 40%, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids).

Motivos para usar a camisinha você já tem. E são vários. Agora, vamos derrubar todas razões que você tenta usar para não encapar o bicho a cada vez que abaixa as calças. Preparado?

/ É quase impossível contrair uma DST

Vamos começar pelo mais preocupante: perdemos o medo das doenças sexualmente transmissíveis. Apesar de 94% dos brasileiros saberem que a camisinha é a melhor forma de prevenção às DSTs e AIDS, 45% da população sexualmente ativa do país não usou preservativo nas relações sexuais casuais nos últimos 12 meses. Os dados são da Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira (PCAP). Realizada em 2013, a pesquisa entrevistou 12 mil pessoas na faixa etária de 15 a 64 anos, por amostra representativa da população brasileira.

Quando falamos em sexo desprotegido, muitas pessoas se preocupam mais com uma gravidez indesejada do que contrair alguma doença. E por que não se proteger? Bem, de acordo com Alfredo Maluf, diretor da linha de camisinhas da marca Preserv, o julgamento vem na frente. “Muitas vezes o pensamento é que uma pessoa muito bonita não tenha doença, ou então, que como seria o fato isolado, não teria problemas. Não sejamos hipócritas, quem nunca pensou assim?”, indaga. 

Fizemos, inclusive, uma enquete em relação a isso. Veja mais abaixo.

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A estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que, a cada ano, 131 milhões de pessoas sejam infectadas com clamídia; 78 milhões com gonorréia; e 5,6 milhões com sífilis. Algumas doenças desconhecidas por muitos e que podem ser consideradas como “menos preocupantes” por uma parcela da população.

Existe um outro espectro também, levantado por Carlos Augusto Araújo, andrologista, diretor do Instituto Paulista e membro da Sociedade Internacional para Saúde Sexual (ISSM, na sigla em inglês). “Estamos em um cenário em que bactérias estão ficando resistentes aos antibióticos que utilizamos em alguns tratamentos. Portanto, a camisinha impede a infecção e pode pôr um fim na transmissão”, adiciona.

E a preocupação não é só com os jovens, pois as DSTs têm crescido também no público mais velho. “O homem mais velho tem mais dificuldade de aceitar o uso do preservativo, porque ele associa isso à a juventude, quando não se usava muito a camisinha e as DSTs ainda não eram propagadas.

“Outro fator importante é que ainda existe o tabu de se falar sobre sexo na melhor idade, seja pela família, por eles mesmos e até nos consultórios médicos, que devem estar ainda mais atentos”, acrescenta Araújo.

Algumas das principais DSTs

Clique no nome para exibir mais informações.

AIDS

Compromete o funcionamento do sistema imunológico humano e, dessa forma, o organismo fica mais debilitado e não consegue se defender das agressões externas, como: bactérias, parasitas, outros vírus e células cancerígenas. Essa doença não tem cura, entretanto, por meio de coquetéis de medicamentos é possível minimizar os sintomas.

SÍFILIS

Apresenta-se com o aparecimento de uma pequena ferida indolor e sem a presença de pus nos órgãos sexuais e ainda com ínguas nas virilhas. Essas feridas podem desaparecer com o tempo, mas isso não significa que você está curado. Por isso, é importante buscar auxílio de um médico para que ele indique medicamentos específicos a fim de evitar que a doença continue a avançar no organismo.

HPV

Aparecimento de verrugas sob a pele na área dos lábios e boca – que podem chegar às cordas vocais –, e nas regiões genital e anal. As verrugas nas partes íntimas, tanto feminina quanto masculina, requerem cuidados especiais, já que podem se desenvolver para tumores malignos, principalmente no colo do útero e no pênis

GONORRÉIA

Altamente contagiosa, ela pode entrar no corpo por meio da vagina, boca ou reto. Entre os principais sintomas estão: corrimento turvo de secreções e desconforto (ardor e queimação). No entanto, pode se apresentar de maneira silenciosa. A doença é tratada com o uso de antibióticos ministrados por via oral e por injeções.

HERPES

Trata-se de pequenas bolhas que surgem, especialmente, na parte externa da vagina e na ponta do pênis. Pelo fato de que coçam bastante, as bolhas podem acabar se rompendo causando uma ferida. O tratamento é feito com medicamento de via oral e/ou tópico.

CLAMÍDIA

Causada por uma bactéria e geralmente não tem sintomas. A infecção atinge especialmente a uretra e órgãos genitais, mas pode acometer a região anal, a faringe e ser responsável por doenças pulmonares. É uma das causas da infertilidade masculina e feminina.

/ Camisinha é incômoda e amolece o amigão

Esse é o maior engodo usado por quem cresceu sem a cultura do sexo protegido. Um estudo publicado no The Journal of Sexual Medicine investigou 500 homens héteros com idade entre 18 e 24 anos. Esses caras haviam citado previamente que a camisinha atrapalhava o sexo. Depois de alguns experimentos, os cientistas descobriram que quem reclamou já estava propenso a sofrer uma disfunção sexual, mesmo que não usasse o preservativo.

Ao mesmo tempo, 38% dos caras relataram que o acessório não afetou a sensibilidade na hora do sexo.

“Precisamos parar de reproduzir esse discurso de que o preservativo atrapalha o sexo e introduzir as pessoas em uma cultura de sexo seguro. Existe toda uma parcela da população que amadureceu sexualmente com este pensamento, mas é preciso reforçá-lo”, diz Beto de Jesus, gerente de Prevenção, Testagem e Advocacy da Aids Healthcare Foundation (AHF) no Brasil. 

O executivo cita ainda que questões ideológicas inferem também na conscientização do sexo protegido a fim de diminuir a propagação das doenças. “Tudo começa na educação. Se não promovermos o sexo seguro nas escolas, não introduziremos os adolescentes à essa cultura que comentei acima, de que o normal é transar com camisinha e não o contrário”, defende. “Porém, existe uma relutância de grupos religiosos que administram colégios, de alguns pais que não conversam com seus filhos, etc”.

Mais: Segundo pesquisa da Caixa Seguros, 34% dos entrevistados admitiram já ter feito sexo sem proteção após consumir drogas lícitas ou ilícitas. A justificativa pode estar no fato de que o consumo de substâncias químicas podem afetar a libido dos homens que, por consequência, ficam com receio de ter o desempenho sexual minimizado pelo preservativo. Esse entendimento se dá em um estudo arranjado pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), com cerca de  3 500 homens. 28% (a maioria) deles têm mais medo da impotência sexual, por exemplo, do que perder um emprego.

A camisinha aperta meu pênis

“O pênis do brasileiro mede, em média, 14 cm. Quer dizer, não é algo que uma camisinha não comporte”, brinca de Jesus. E, mesmo que o seu instrumento meça 30 cm, já existem no mercado uma infinidade de modelos diferentes de camisinhas que podem satisfazer seus dotes, digamos assim. Esse papo de que preservativo é igual a chupar bala com o papel já é ultrapassado, meu caro. 

“Acreditamos que o sexo com preservativo pode ser prazeroso e divertido. Por isso, investimos em produtos diferenciados com apelos diferentes, com cores, sensações, tamanhos e texturas diferentes. Assim, conseguimos despertar a curiosidade do público e promover o uso de preservativo de forma prazerosa e divertida”, conta Daniel Marun, diretor executivo da DKT do Brasil, detentora da marca de preservativos Prudence.

Lelo, fabricante de produtos de luxo voltados ao sexo, anunciou recentemente uma camisinha que promete revolucionar o prazer e a segurança. Batizado de HEX, o acessório é constituído por centenas (mais precisamente 350) de placas de látex, com o,o45 mm de espessura.

Segundo a fabricante, a tecnologia hexagonal da camisinha permite a troca de calor entre você e sua parceira, sendo extremamente lisa pelo lado de fora e texturizada por dentro. O “tecido” flexiona e se estende para melhor encaixe no órgão, além de ser super seguro.

“Existe uma razão para os favos de mel serem do formato que são, assim como as escamas de uma cobra se moveram do jeito que se movem: é por causa dos hexágonos”, diz Filip Sedic, inventor do Lelo Hex.

camisinha

Ele continua: “Essa forma geométrica é forte, simétrica e encaixa perfeitamente uma na outra, já que é um dos formatos naturais ideais para tudo que precisa ser leve e incrivelmente forte”, completa.

Sedic ainda compara a HEX ao grafeno, o material com estrutura hexagonal mais leve, forte e fino que existe no mundo, considerado 200 vezes mais resistente que o aço.

Ficou curioso? Só dar o play e assistir o vídeo abaixo.

Eu confio na pessoa ao meu lado

A monogamia não blinda seu organismo das relações sexuais, a camisinha sim. Por outro lado, houve um crescimento significativo de pessoas que relataram ter tido mais de 10 parceiros sexuais na vida. Esse percentual subiu de 19%, em 2004, para 26% em 2008, chegando a 44% no ano de 2013. Ou seja: estamos transando de forma desprotegida com cada vez mais pessoas.

Já ouviu falar em janela imunológica? Pois bem, ela é o intervalo de tempo entre a infecção pelo vírus da aids e a produção de anticorpos anti-HIV no sangue. Esses anticorpos são produzidos pelo sistema de defesa do organismo em resposta ao HIV e os exames detectam a presença dos anticorpos, o que confirma a infecção pelo vírus. Traduzindo: você pode iniciar um relacionamento de confiança e monogamia com uma pessoa que tenha contraído uma DST, mas que ainda não se manifestou ou é silenciosa.

Outra coisa: confiança. Como medir esse valor quando a saúde está em jogo? Uma pesquisa feita com os usuários da plataforma Second Love, especializado em relacionamentos extraconjugais, aponta que 31% das pessoas no Brasil já traíram com alguém que conheceram na internet, enquanto quase metade dos usuários (46,5%) acham que a rede é o melhor local para começar uma aventura.

Vale lembrar, também, que o portal Ashley Madison, especializado em traição, divulgou um ranking das cidades no mundo com mais perfis cadastrados. A líder é São Paulo, com cerca de 374,5 mil usuários ativos.

Mais números divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que pessoas traem sem camisinha, frutos de uma pesquisa com 8 mil homens e mulheres entre 15 a 64 anos. A maioria dos casados que buscaram outras parceiras não usou preservativo em todas as relações.

No grupo dos traidores, 57% deles dispensaram a camisinha, enquanto 75% das mulheres que traem não usaram preservativo em todas as relações eventuais. Na mesma pesquisa, 80% dos entrevistados (homens e mulheres) acham que ter parceiro fiel e não infectado reduz o risco de trasmissão do HIV.

Ela toma anticoncepcional

Errou, como diria Fausto Silva. Você não deve jogar sobre as costas da mulher uma coisa que é de sua responsabilidade, certo? Afinal, como diz outro ditado popular, é mais fácil tirar a bala do que confiar no colete. Neste caso, evitar que o tiro seja dado. Além do mais, os anticoncepcionais têm uma margem de erro de 0,03%, já a camisinha, se colocada do jeito certo, é 100% eficaz.

Outra coisa: cada dia mais, as mulheres estão abandonando a pílula anticoncepcional. Então, este seu pensamento, além de machista, é ultrapassado. É hora de evoluir.

DST ou filho?

Jogamos no Twitter uma enquete*, em dezembro de 2015, sobre o que assombrava mais o pensamento de homens e mulheres quando o assunto é sexo sem camisinha. A dinâmica era simples: em uma situação hipotética em que o participante deveria transar sem proteção, qual seria a maior preocupação: uma DST ou um filho? Dos 190 participantes, 67% (a maioria) revelaram que uma gravidez seria o menor dos males, enquanto 33% preferiam contrair uma DST. É mole?

Além disso, conduzimos uma outra enquete*, também pelo Twitter, para entender por que as garotas topavam transar sem camisinha e em qual situação isso aconteceria. Das 99 participantes (somente mulheres), 68% (a maioria) disseram que não tem choro, nem vela: sem preservativo, sem sexo.

Porém, cerca de 14% disseram transar mesmo que o cara não tenha preservativo, enquanto 12% incrivelmente acreditam que beleza seja premissa para sexo desprotegido. Tivemos ainda 6% que disseram odiar camisinha.

 

Depois de todos esses itens, a pergunta no título desta reportagem permanece:

Por que diabos você não usa camisinha?

 

* Infelizmente, a enquete realizada não permite analisar faixa etária, escolaridade e poder aquisitivo, o que agrega caráter informal ao levantamento.

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